Nike China: 30% de queda, 8 anos de baixa — e uma lição que toda marca global precisa ouvir
A Nike fechou o ano fiscal em maio de 2026 com a menor receita anual na China em oito anos. Queda de 30% desde o pico de 2021, quando o mercado chinês movia US$ 8,29 bilhões. Oito trimestres consecutivos de queda. O que era a região de crescimento mais rápido da empresa virou seu menor mercado global.
O esporte na China, entretanto, cresce. A categoria de produtos esportivos é a de crescimento mais rápido no varejo chinês. A participação em esportes está no nível mais alto em décadas. O mercado de sportswear cresceu 51% em cinco anos.
A Nike está afundando numa maré de alta. Isso torna o colapso mais impressionante — e mais revelador.
O que aconteceu
A virada começou em março de 2021. Uma declaração anterior da Nike sobre “preocupação” com trabalho forçado em Xinjiang ressurgiu. Consumidores chineses chamaram ao boicote. Videos de pessoas queimando tênis Nike viralizaram. Wang Yibo, ator de A-list, rescindiu seu contrato de embaixador da marca.
Enquanto a Nike era cancelada, a Anta e a Li-Ning fizeram o oposto: dobraram em campanhas nacionalistas, destacaram o uso de algodão de Xinjiang e transformaram o conflito em oportunidade de marketing.
Mas boicote explica o choque inicial, não a tendência de cinco anos. O que manteve a queda foi algo mais profundo: o movimento Guochao (“China Chic”), campaign iniciada por Xi Jinping anos antes, que promove orgulho em produtos chineses e.design nacionais. O Guochao mudou a percepção do consumidor jovem chinês: comprar marca nacional deixou de ser sinal de inferioridade e virou sinal de identidade cultural.
A lição que interessa
Yaling Jiang, fundadora da ApertureChina, cravou: “Nike se tornou irrelevante. Não consigo lembrar da última coisa nova que fizeram.” E completou: se você mencionar Adidas para um jovem chinês, ele vai falar das roupas para pets, jerseys chinesas, jaquetas com design local. A Adidas se recuperou. Crescente de 13% na região em 2025. A Nike não.
A diferença não é tamanho de marketing. É estratégia de produto. A Adidas descentralizou: times locais na China com poder de criar produtos específicos para o consumidor chinês. A Nike continuou replicando o catálogo global — “o que funciona em Portland funciona em Xangai.”
Não funciona mais.
Tracy Dai, da consultoria China Skinny, resume: “Anos atrás, se você perguntasse a um garoto do colegial qual tênis quer, dizia Nike ou Adidas. Hoje diz Anta ou Li-Ning. Nike provavelmente não é mais cool para eles.”
O que isso significa pra marcas globais
Isso não é um caso isolado de Nike. É um case study de como branding global quebra quando vento político sopra contra. Três princípios:
Identidade nacional > marca global em mercados emergentes. Quando um governo decide promover produção nacional — e o consumidor internaliza essa narrativa —, nenhuma força de marca global supera o orgulho cultural. A Nike aprendeu isso da pior forma.
Produto local > catálogo replicado. A Adidas cresceu na China descentralizando design e produção criativa. A Nike manteve controle centralizado. Em mercado que valoriza hyperlocal connection, centralização é barreira.
Brand equity não é conta poupança. A Nike tinha 40 anos de brand building na China. Desfez em cinco. Equity se constrói com consistência e se perde quando a marca para de entregar relevância — não importa quanto já investiu.
Para quem atua com marcas em mercados internacionais, a pergunta é direta: sua marca está adaptando produto e narrativa para o local, ou está exportando o mesmo playbook e esperando que funcione? A Nike mostrou o custo de responder “sim” à segunda opção.
Ler a reportagem original (CNBC) ↗
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